quinta-feira, 12 de março de 2015

Tecer formas e estilos com a Capulana

 




Capulana é o nome que se atribuiu, a um tecido que, tradicionalmente, é usada pelas mulheres para cobrir o corpo. Considerada uma riqueza cultural, caracterizada por diversas cores e tamanhos que pode ser encontrada com os vendedores ambulantes e, em diversas lojas do todo território moçambicano, é actualmente uma nova preferência no mundo da moda internacional.

Para a estilista moçambicana, Taússe Daniel, a arte de transformar a capulana em peças únicas a destacar: saias e vestidos para as mulheres e, casacos para os homens, virou uma tendência no mundo da moda, graças a eventos como Mozambique Fashion Week (MFW), que promovem este precioso tecido, para além das figuras públicas nacionais, aos exemplos dos músicos Stewart Sukuma, Mingas e Neyma, ainda personalidade internacionais a destacar: a Beyoncé e Rihanna que influenciam a sociedade para o uso desse tecido característico de Moçambique, nessa vertente mais moderna.
Na sua opinião, «essa nova concepção de olhar-se para a capulana como um tecido, que também pode desfilar em grandes eventos é positiva, tendo em conta que ela é uma marca do país para o mundo».




Em 2009, Taússe Daniel conquistou o prémio de Young Design no evento de moda, Mozambique Fashion Week, para além de cria colecções de roupas e acessórios que, exercem uma forte influência sobre a maneira como as pessoas devem vestirem-se, é arquitecta e urbanista.
«Compro a capulana cá em Maputo pois, temos muitas lojas que vendem esse tecido mas, quando preciso de alguma estampa personalizada encomendo de fora. Não posso revelar o país que me tem fornecido esse tipo de serviço pois, é nesse segredo que reside o meu sucesso para além da minha criatividade», contou.
Taússe Daniel, actualmente com 23 anos, ainda em dedo de conversa contou que apenas usa as roupas de capulana em eventos especiais a destacar, o desfile de moda, o lobolo e o casamento e, referiu que fornece roupa para as províncias de Beira e Inhambane ainda para países como, Angola, Portugal e Brasil para além de ter feito algumas roupaspara figuras públicas como a antiga governadora da cidade de Maputo, Luciana Hama e a cantora Marlene.
Diferente da Taússe Daniel, para estilista moçambicana Cira Saldanha as roupas de capulana fazem parte do seu dia-a-dia pois, é a forma que ela encontrou para valoriza-la.
Cira Saldanha acredita que na capulana há uma forma diferente de vestir, não apenas pelo que ela significa para a sociedade moçambicana mas, pelo facto de ela ser algo novo para o mundo da moda.
Na sua opinião com a globalização a capulana começou a perder terreno para as calças, saias  e vestidos de gala importados mas, ultimamente, as mulheres começam a perceber que é possível vestir todos os estilos de roupa, aproveitando ricamente a beleza única desse tecido.  A capulana é um símbolo para os moçambicanos, para Cira Saldanha, criar roupas baseadas nela é uma das formas de preserva-la.
A capulana é um tecido colorido que as mulheres moçambicanas vestem em vários momentos da vida. As mulheres enrolam a capulana na cintura, fazendo, deste modo, o papel de saia. Pode-se também cobrir o tronco ou qualquer outra parte do corpo, isso, vária de localidade para localidade, ou vontade mesmo da pessoa.Algumas mulheres usam a capulana para carregar seu bebé em segurança nas costas, enquanto realizam outras tarefas.

para Cira Saldanha, ela não seria mais do que um tecido comum se não fossem os lindos desenhos estampados nela, que são verdadeiras obras de arte e o grande significado que ela tem para o povo moçambicano.
Precipita-se quem pensa que a capulana é apenas procurada por mulheres pois Cira Saldanha, garantiu que os homens também já estão nessa competição.
Cira Saldanha concorda com a Taússe Daniel ao afirmar que as mulheres procuram mais por vestidos e saias e os homens por casacos de capulana.

Custos da valorização da Capulana
Engana-se quem pensa que mandar fazer roupas de capulana é algo acessível, Taússe Daniel, revelou que já criou um vestido de casamento de capulana com detalhes de pérola em uma semana e, cobrou 30 mil meticais ainda acrescentou que, um vestido simples com esse tecido cultural cobra no mínimo cinco mil meticais. Cira Saldanha afirmou que também já produziu um vestido de casamento com detalhes de capulana em uma semana e, cobrou 25 mil meticais ainda referiu que, cobra no mínimo três mil meticais para um vestido simples com esse tecido.
«Criar uma obra única, por mais simples que seja, não é uma tarefa fácil. Geralmente o cliente propõe o modelo da roupa que pretende mas, sempre tenho que fazer a minha proposta de acordo com o evento. Conto com ajuda de seis colaboradores e tenho uma loja em Maputo. No ano passado levei a capulana para um evento de moda na Itália que foi muito bem recebida», justificou Taússe Daniel. 
Para Cira Saldanha toda obra de arte bem trabalhada, por mais simples que seja, tem o seu valor, afirmou que compra a capulana em Maputo e os trabalha com mais oito pessoas, acrescentou que com a capulana pode-se também fazer cobertores, toalhas de mesas e ainda cortinas para janelas.
Cira Saldanha tem actualmente 34 anos, cresceu num ambiente de linha e agulha pois, a sua mãe é uma modista de profissão, com quem aprendeu essa arte de corte e costura. Em 2005 viajou para as terras lusas, onde fez o curso de decoração e, segundo ela usava muita costura para a criação de roupas das cadeiras e mesas. Em 2013 regressou a terra natal onde, retomou a arte de trabalhar com o tecido. Diferente da mãe apostou em criar trabalhos de sua autoria e tornou-se dessa forma em uma estilista. Diferente da Taússe Daniel, ela afirmou que nunca vestiu alguma figura pública e ainda, não participou em algum evento de moda mas fornece roupas para Portugal.
Para a criação das suas roupas, as duas estilistas afirmaram que apostam na capulana mais resistente (dura) pois, as suas criações saem da melhor forma. Para além da capulana têm apostado nos tecidos de renda e cetim.
Por sua vez, a deputada da Renamo, Ivone Soares, postou recentemente fotografias suas nas redes socias, vestida de capulana e ainda afirmou «Valorizemos o que é nosso. Eu gosto da nossa Capulana. Podemos estar elegantes vestindo (também) o que é nosso».

Para Rassane Média e Fermina Tameta, membros da associação e banda Kulhanga, a ideia de apostar em roupas de capulana começou com a integração das duas na banda nos princípios de 2014. A banda faz a música afro-contemporâneo, um estilo que mistura ritmos africanos como: a Marrabenta, o Xigubo, House e Kwaito, as duas afirmaram que sentiram a necessidade de apostar em uma indumentária que valoriza a cultura africana e, segundo elas a capulana é uma marca africana por isso, passaram a usa-la. Numa primeira fase, em eventos da banda mas acabaram por ganhar o gosto pelo que, actualmente a vestem frequentemente.
Rassane Média de 23 anos tem preferência pelas saias e casacos de capulanas e a Fermina Tameta aposta mais em chapéus e calças com detalhes de capulana pois, acreditam que se identificam mais com esses artigos.
A capulana faz também parte do quotidiano do grupo Tofo de Mafalala que existe há quase uma década em Moçambique e dedica-se na dança e música cultural moçambicana.

De quem herdamos?

A Capulana representa hoje a roupa africana, mas é herança das relações comerciais que se estabeleceram com os povos asiáticos e árabes, posteriormente a chegada dos europeus. A origem do uso ainda é incerta. O comércio colonial em Moçambique tinha como moeda de troca o ouro e o marfim, em contrapartida, os comerciantes estrangeiros traziam o pano (Índia) principalmente no período colonial português. Foi nesse processo de troca que o tecido, trazido da Índia, tornou-se uma vestimenta importante na cultura moçambicana.
A Capulana, com os diferentes usos quotidianos tornou-se em um adereço tradicional, adquiriu diversos significados ao longo do tempo e que de tal maneiras tornou-se um elemento de representação cultural. Ela representa hoje, através de suas cores, usos e estampas, a nação, grupos distintos e transmite os vários significados dos hábitos e costumes do povo moçambicano.

Malap Mathe

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