quinta-feira, 19 de julho de 2018

Infância infectada e afectada pelo HIV/SIDA



 Moçambique é um dos países onde 50% da população é composta por crianças. As crianças acabam sendo as mais afectadas de forma directa e indirectas pelo HIV/SIDA”, diz Elena Colonna, especializada na sociologia da Infância.

Todos os dias, Lúcia Macamo (nome fictício), acorda pelas manhãs para tomar as suas vitaminas (forma como a mãe Paula refere os antirretrovirais). Lúcia Macamo só tem apenas cinco anos e é seropositiva. «Ela não é culpada por ter essa doença. Foi negligência minha. Comecei a namorar com 15 anos e tinha preferência pelos homens mais velhos, alguns casados, pois davam-me dinheiro para comprar roupas, lanches, passeios e ainda me levavam de carro para casa. Na altura eu estava na oitava classe e estudava no curso nocturno numa das escolas públicas da cidade capital. O meu rendimento escolar era baixo pois não me dava tempo para rever a matéria em casa. Só pensava em namorar. Namorava com vários homens ao mesmo tempo. Não sei quem me contaminou. Praticava o sexo com todos eles muitas vezes sem o uso do preservativo. Aos 18 anos descobri que estava grávida. Pela inexperiência, só fui ao hospital quando tinha seis pela insistência da minha mãe. Onde descobri que estava contaminada. Meses depois tive conhecimento que a minha bebé também contraiu o SIDA», conta Paula.
Com um olhar amargurado, refere que não é fácil viver com esta doença, principalmente ter uma filha, ainda muita nova a enfrentar o dilema de viver com o SIDA. Paula revela que não contou a filha sobre a doença que carrega. Acredita que ela é muito nova para entender o que significa ter essa doença. Revela ainda que Lúcia Macamo pensa que os antirretrovirais são vitaminas que ajudam no crescimento de uma criança. Afirma que apesar do pai da Lúcia Macamo ser um homem casado tem apoiado as duas a enfrentar esse dilema.

No mundo actual, o uso de preservativo nas relações poderia significar uma prova de amor e protecção para com o outro. Mas observa-se que muitas jovens abrem mão do preservativo por medo de serem abandonadas ou maltratadas por seus parceiros. Por outro lado, o facto de estar apaixonado faz com que o jovem crie uma imagem falsa de segurança, negando os riscos inerentes ao não uso do preservativo.
Por sua vez, Ana Júlio (Nome fictício), com 11 anos é uma das várias crianças existentes em Moçambique afectadas pelo vírus do HIV/SIDA. Ela não é seropositiva mas sofre consequências pela existência dessa doença na família. Vive apenas com a mãe, Cátia, (Nome fictício) que é seropositiva. Cátia considera a Ana Júlio o seu braço forte. Afirma que Ana Júlio mensalmente é que enfrenta a fila do hospital para fazer o levantamento dos medicamentos enquanto ela vai ao serviço. Afirma ainda que é empregada doméstica no entanto, diz não cozinhar para família na qual trabalha. Revela que desde que descobriu a doença dificilmente aceita cozinhar mesmo na sua própria casa. A considera que a Ana Júlio é a dona das panelas da sua casa, a que controla os medicamentos a que mais cuida das duas.

«Falar com a minha filha sobre essa doença não foi fácil. Descobri que estava infectada há três anos. Ana Júlio é a minha única filha e a minha única família em Moçambique. Quando separei-me do pai, ela ainda era bebé. Minha mãe faleceu há cinco anos e o meu único irmão vive na Africa do Sul. Ana Júlio teve conhecimento que estou doente há dois anos. Demorei contar pois fiquei com medo que ela rejeitasse-me. Mas para minha surpresa ela apoiou-me,» conta Cátia.
Para Elena Colonna, existem famílias que preferem informar a criança que é seropositiva e outras preferem ocultar e alegando o consumo diário dos medicamentos a existência de uma outra doença ou o facto de ser vitamina para crescer. Do ponto de vista sociológico essa atitude por um lado está associada a faixa etária da criança. Se a criança for um pouco mais velha, nesse caso adolescente, é mais fácil explicar comparativamente a uma criança muito nova. Por outro lado existe a questão da discriminação pela comunidade em relação aos infectados e afectados pelo HIV/SIDA.
Colonna diz que a decisão de informar a criança sobre o seu estado de saúde depende do balanço que os pais ou responsáveis da mesma fazem em relação as vantagens ou desvantagem que lhe possam afectar.

Estigma e Discriminação

Viver com uma doença séria, estigmatizada é stressante e difícil. As pessoas com HIV/SIDA, podem se deparar com a rejeição social ou até mesmo das pessoas mais próximas como amigos e familiares. Muitas vezes o estigma e a discriminação têm levado as pessoas infectadas e afectadas pelo vírus a perder seus empregos, suas relações amorosas até mesmo serem expulsas do meio social em que vivem.
«A maioria das pessoas não entendem que os doentes precisam de apoio, carinho para que possam ter uma boa recuperação. Já tentei contar para uma minha amiga sobre a doença da minha mãe. E, ela começou a dizer que eu também estava doente como minha mãe. Disse que não queria brincar mais comigo pois eu tinha uma doença mortal e contagiosa. Eu e minha mãe sempre vivemos em casas arrendadas. Quando as pessoas começam a falar mal de nós por causa da doença. Nós mudamos do bairro de imediato», Conta Ana Júlio.
Cátia afirma que o maior problema das pessoas infectadas e afectadas é a discriminação e o estigma.   
Por causa do estigma associado com o HIV/SIDA, muitas vezes é difícil falar com as outras pessoas sobre o diagnóstico da doença, principalmente com as pessoas com quem possivelmente pode-se desenvolver algum tipo de relacionamento sexual ou afectico, com medo de ser rejeitada, refere Cátia.
«Tenho mais apoio da minha família e do pai da minha filha. Essas são as únicas pessoas que sabem que eu e a Lúcia estamos infectadas. Tenho medo de contar às demais pessoas pois não sei qual será a recção delas. Já ouvi casos de pessoas infectadas e afectadas a ser expulsas dos bairros ou até mesmo rejeitados pelos namorados. Não quero passar por essas coisas. E nem quero que a minha filha seja proibida de brincar com as crianças do bairro pelo facto de ser uma serepositiva», desabafa Paula.
 Para Elena Colonna a discriminação é devido ao fraco conhecimento das reais formas de contaminação por parte das comunidades. A transmissão do vírus acontece principalmente pela via sexual ou, através do sangue por meio de uma ferida aberta em contacto muito forte com uma outra ferida também aberta. O que é muito difícil nas situações normais da vida quotidiana. Mas as pessoas ficam com medo de aproximarem-se das pessoas infectadas ou até mesmo das pessoas afectadas alegando que serão contaminadas por isso acabam discriminando as mesmas. Por outro lado o HIV/SIDA é associado ao estigma, onde a pessoa portadora do vírus é vista como sendo a culpada. O que muitas vezes não se aplicada a situações em que a criança tenha contraído o vírus na gestão através da mãe.
Texto: Lápssia Mathe
Foto: Internet

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