“Moçambique é um dos
países onde 50% da população é composta por crianças. As crianças acabam sendo as
mais afectadas de forma directa e indirectas pelo HIV/SIDA”, diz Elena Colonna,
especializada na sociologia da Infância.
Todos
os dias, Lúcia Macamo (nome fictício), acorda pelas manhãs para tomar as suas
vitaminas (forma como a mãe Paula refere os antirretrovirais).
Lúcia Macamo só tem apenas cinco anos e é seropositiva. «Ela não é culpada por
ter essa doença. Foi negligência minha. Comecei a namorar com 15 anos e tinha
preferência pelos homens mais velhos, alguns casados, pois davam-me dinheiro
para comprar roupas, lanches, passeios e ainda me levavam de carro para casa.
Na altura eu estava na oitava classe e estudava no curso nocturno numa das
escolas públicas da cidade capital. O meu rendimento escolar era baixo pois não
me dava tempo para rever a matéria em casa. Só pensava em namorar. Namorava com
vários homens ao mesmo tempo. Não sei quem me contaminou. Praticava o sexo com
todos eles muitas vezes sem o uso do preservativo. Aos 18 anos descobri que
estava grávida. Pela inexperiência, só fui ao hospital quando tinha seis pela
insistência da minha mãe. Onde descobri que estava contaminada. Meses depois
tive conhecimento que a minha bebé também contraiu o SIDA», conta Paula.
Com
um olhar amargurado, refere que não é fácil viver com esta doença,
principalmente ter uma filha, ainda muita nova a enfrentar o dilema de viver
com o SIDA. Paula revela que não contou a filha sobre a doença que carrega.
Acredita que ela é muito nova para entender o que significa ter essa doença.
Revela ainda que Lúcia Macamo pensa que os antirretrovirais são vitaminas que
ajudam no crescimento de uma criança. Afirma que apesar do pai da Lúcia Macamo
ser um homem casado tem apoiado as duas a enfrentar esse dilema.
No
mundo actual, o uso de preservativo nas relações poderia significar uma prova
de amor e protecção para com o outro. Mas observa-se que muitas jovens abrem
mão do preservativo por medo de serem abandonadas ou maltratadas por seus
parceiros. Por outro lado, o facto de estar apaixonado faz com que o jovem crie
uma imagem falsa de segurança, negando os riscos inerentes ao não uso do
preservativo.
Por
sua vez, Ana Júlio (Nome fictício), com 11 anos é uma das várias crianças
existentes em Moçambique afectadas pelo vírus do HIV/SIDA. Ela não é
seropositiva mas sofre consequências pela existência dessa doença na família.
Vive apenas com a mãe, Cátia, (Nome fictício) que é seropositiva. Cátia
considera a Ana Júlio o seu braço forte. Afirma que Ana Júlio mensalmente é que
enfrenta a fila do hospital para fazer o levantamento dos medicamentos enquanto
ela vai ao serviço. Afirma ainda que é empregada doméstica no entanto, diz não
cozinhar para família na qual trabalha. Revela que desde que descobriu a doença
dificilmente aceita cozinhar mesmo na sua própria casa. A considera que a Ana
Júlio é a dona das panelas da sua casa, a que controla os medicamentos a que
mais cuida das duas.
«Falar
com a minha filha sobre essa doença não foi fácil. Descobri que estava
infectada há três anos. Ana Júlio é a minha única filha e a minha única família
em Moçambique. Quando separei-me do pai, ela ainda era bebé. Minha mãe faleceu
há cinco anos e o meu único irmão vive na Africa do Sul. Ana Júlio teve
conhecimento que estou doente há dois anos. Demorei contar pois fiquei com medo
que ela rejeitasse-me. Mas para minha surpresa ela apoiou-me,» conta Cátia.
Para
Elena Colonna, existem famílias que preferem informar a criança que é
seropositiva e outras preferem ocultar e alegando o consumo diário dos medicamentos
a existência de uma outra doença ou o facto de ser vitamina para crescer. Do
ponto de vista sociológico essa atitude por um lado está associada a faixa etária
da criança. Se a criança for um pouco mais velha, nesse caso adolescente, é
mais fácil explicar comparativamente a uma criança muito nova. Por outro lado
existe a questão da discriminação pela comunidade em relação aos infectados e afectados
pelo HIV/SIDA.
Colonna
diz que a decisão de informar a criança sobre o seu estado de saúde depende do
balanço que os pais ou responsáveis da mesma fazem em relação as vantagens ou
desvantagem que lhe possam afectar.
Estigma e Discriminação
Viver com uma doença séria,
estigmatizada é stressante e difícil. As pessoas com HIV/SIDA, podem se deparar
com a rejeição social ou até mesmo das pessoas mais próximas como amigos e familiares.
Muitas vezes o estigma e a discriminação têm levado as pessoas infectadas e
afectadas pelo vírus a perder seus empregos, suas relações amorosas até mesmo
serem expulsas do meio social em que vivem.
«A maioria das pessoas não
entendem que os doentes precisam de apoio, carinho para que possam ter uma boa
recuperação. Já tentei contar para uma minha amiga sobre a doença da minha mãe.
E, ela começou a dizer que eu também estava doente como minha mãe. Disse que
não queria brincar mais comigo pois eu tinha uma doença mortal e contagiosa. Eu
e minha mãe sempre vivemos em casas arrendadas. Quando as pessoas começam a
falar mal de nós por causa da doença. Nós mudamos do bairro de imediato», Conta
Ana Júlio.
Cátia afirma que o maior problema
das pessoas infectadas e afectadas é a discriminação e o estigma.
Por causa do estigma associado
com o HIV/SIDA, muitas vezes é difícil falar com as outras pessoas sobre o
diagnóstico da doença, principalmente com as pessoas com quem possivelmente
pode-se desenvolver algum tipo de relacionamento sexual ou afectico, com medo
de ser rejeitada, refere Cátia.
«Tenho mais apoio da minha
família e do pai da minha filha. Essas são as únicas pessoas que sabem que eu e
a Lúcia estamos infectadas. Tenho medo de contar às demais pessoas pois não sei
qual será a recção delas. Já ouvi casos de pessoas infectadas e afectadas a ser
expulsas dos bairros ou até mesmo rejeitados pelos namorados. Não quero passar
por essas coisas. E nem quero que a minha filha seja proibida de brincar com as
crianças do bairro pelo facto de ser uma serepositiva», desabafa Paula.
Para Elena Colonna a discriminação é devido ao
fraco conhecimento das reais formas de contaminação por parte das comunidades.
A transmissão do vírus acontece principalmente pela via sexual ou, através do
sangue por meio de uma ferida aberta em contacto muito forte com uma outra
ferida também aberta. O que é muito difícil nas situações normais da vida
quotidiana. Mas as pessoas ficam com medo de aproximarem-se das pessoas infectadas
ou até mesmo das pessoas afectadas alegando que serão contaminadas por isso
acabam discriminando as mesmas. Por outro lado o HIV/SIDA é associado ao
estigma, onde a pessoa portadora do vírus é vista como sendo a culpada. O que
muitas vezes não se aplicada a situações em que a criança tenha contraído o
vírus na gestão através da mãe.
Texto: Lápssia Mathe
Foto: Internet
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